segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A África do Sul será o novo Zimbabué da SADC?

Para além da luta pelo poder no seio do ANC e na África do Sul, outro tema polémico que se discute na 53º Congresso do partido no poder é a nacionalização de algumas riquezas. Se este não era um tema tão importante para o partido, então passou a ser a partir do momento em que o descontentamento social rebentou e manchou a imagem do ANC.

As manifestações por melhores salários nas minas e a resposta violenta da polícia fizeram o partido trepidar este ano. O governo ainda tentou sair-se bem se fazendo de vitima, mas se esqueceu que acenava com as mãos ensaguentadas. Mas Julius Malema foi a primeira bomba que o ANC, evidenciando a sua força, dominou pelo menos por enquanto. Recorde-se que o líder juvenil do partido, apesar dos seus metódos pouco ortodoxos, lutava pela igualdade social, exigindo uma melhor distribuição de riquezas e nacionalizações.

O ANC, agora preocupado, diz que vai discutir profudamente a questão das nacionalizações, nomaedamente da terra. Retirar dos brancos para dar aos pretos, um ideal para acalmar o povo agora e garantir a manutenção do ANC no poder, mas ao mesmo tempo parece uma faca de dois gumes. O que representa a minoria branca para o país? Dominam os setores que fazem girar a economia, isso apesar da elite política estar a fortificar-se ai.

Existe a comunidade internacional, a mesma que reduziu a pó o maior produtor de cereiais e uma das economias mais prosperas do continente, o Zimbabué. Robert Mugabe, tal como o ANC quer fazer agora, procurou dar uma resposta ao seu povo atribuindo-lhe terras retiradas dos ricos. E pergunto agora, quais são as probablidades da África do Sul vir a ser um Zimbabué? Apesar de terem percursos diferentes, eles tem algumas semelhanças extamente nos pontos críticos. Saberá o ANC gerir bem esta batata quente?



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Despertando fantasmas

Na última segunda-feira Bona, na Alemanha, esteve em alvoroço por causa de uma bomba encontrada na estação de comboio. Embora estando nesta cidade, e a menos de três kilometros do lugar, recebi e processei a notícia como se tratasse de algo que não me diz respeito. A explicação imediata para isso não conseguia encontrar num primeiro momento.

As informações sobre o caso eu ia acompanhando pelo Facebook, nem era pelo órgãos de comunicação. Por volta das 20 horas passo pelo centro da cidade e nem vestígios de medo, pânico, ou de alguma preocupação nas pessoas. Aliás, havia muita gente na rua, para o meu espanto. Muitas delas sorriam, conversavam como as vejo fazer diariamente, mas também é verdade que o vai dentro de cada um ninguém sabe, embora possamos imaginar.

Tudo isso levou-me a fazer uma comparações (já esperada); se fosse na minha terra as ruas estariam desertas, e as poucas pessoas que encontrasse estariam a comentar o assunto do dia. Se isso acontecesse o estranho da rua seria o seu mais próximo para comentar, pelo menos seria o momento para o guarda de um prédio conversar com o doutor conhecido, de igual para igual, como simples seres humanos.

O meu aparente distanciamento do assunto tem uma pequena explicação que só no final do dia se revelou; as lembranças de pânico e medo que vivi durante a minha infância durante a guerra civil em Moçambique. Quando o regime sul-africano do Apartheid bombardeava os arredores de Maputo, ou as suas bombas explodiam eu e os meus colegas fugíamos desesperados da sala de aulas com as cadeiras e carteiras a caírem por cima de nós. Isso para não falar da professora que nessa hora ficava tão desesperada quando nós, que nem lhe reconhecimaos a autoridade e o poder.

Nessa epóca já "aplaquei" debaixo da cama da casa do meu tio que vivia no bairro da Liberdade, com medo das explosões que ouvia. Era difícil dormir.

De um dos prédios altos da Av. 24 de Julho, onde pulava com certa tranquilidade com os meus primos e irmão, via fogo do outro lado da baía, provavelmente depois da Catembe. A guerra estava debaixo do meu nariz, paradoxalmente com o brilho do fogo de artificio que muitos gostam de ver, incluindo eu.

Portanto, o acontecimento de Bona veio provar que me está destinado conviver com explosões. Só que aqui a imprevisibilidade tem peso de 100%

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Caso Romney ganhe...

O que se pode prever para os Estados Unidos da América e para o mundo? Muitas catástrofes de certeza, mas no momento vou citar apenas uma óbvia e preocupante; altas figuras do partido republicano são proprietárias de parte da indústria armamentista. Este é um dos negócios mais lucrativos do mundo, dominado pelos que simultaneamente dizem lutar pelo fim da guerra no mundo. Ora, este é um discurso paradoxo, afinal os seus bolsos precisam de continuar a engordar a custas da morte alheia.

E relativamente ao Médio Oriente? Assistiriamos a um retrocesso nos pequenos passos dados por Barack Obama. Mas quero acreditar que os norte-americanos tem bom senso o suficiente para medirem os ganhos ao votarem num dos candidatos, não só tomando em conta os seus interesses nacionais, mas que pensem também na política internacional. Uma grande responsabilidade ser eleitor norte-americano, não? Votarei ao assunto em breve...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

E aperto de mao entre Marcelina Chissano e Afonso Dhlakama é para quando?

Não tenho muito a dizer sobre a celebração dos 20 anos de paz, afinal a imprensa já o fez com artigos e entrevistas que trazem revelacoes quentes sobre os meandros das negociacoes de paz. O assunto já foi revirado do avesso, com analises do ponto de vista económico, político, social, olhando para o passado para o presente e futuro na esteira do abencoado acordo, enfim, quase esgotado.

Mas subitamente lembrei-me de um facto que marcou a era pós acordo. Lembram-se que a ex-primeira dama, Marcelina Chissano, recusou-se a apertar a mão a Afonso Dhlakama, presidente da Renamo? Lembro-me do constrangimento que isso causou, deixando até muitos moçambicanos envergonhados, embora não tivessem nada a ver com o facto. O que revela que os moçambicanos, tem educação, e acima de tudo capacidade de perdoar e vontade de viver em harmonia.

A atitude da senhora Marcelina Chissano, embora tenha sido pessoal, acredito, que criou embaraços para o presidente Joaquim Chissano. Afinal abriu espaço para as pessoas duvidarem da intenção de um acordo de paz e reconciliação por parte da Frelimo. Se até dentro de casa nao havia vontade...
O caso foi pano para manga, manga de camisa de um gigante! Mas esse gigante não era afinal tão grande, porque 20 anos depois quase ninguém se lembra desse facto, que de certa forma passou uma mensagem...
Diz-se que o povo tem memoria curta, não é?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Guiné-Bissau limita-se aos bastidores da ONU

O facto da Guiné-Bissau não ter discursado na 67ª Assembleia das Nações Unidas representa uma humilhação para o país e seu povo, considera o analista político guineense Fafali Kouodawo. Mas o analista reconhece a importância do diálogo lançado durante a Assembleia entre o presidente deposto, Raimundo Pereira, e o presidente de transição, Serifo Nhamadjo. Isso representa, a seu ver, uma base para negociações para o fim da crise política da Guiné-Bissau, onde principalmente os guineenses tem a responsabilidade de resolver os seus problemas. Numa entrevista a DW, conduzida por mim, Fafali Kouodawo começou por comentar a iniciativa de diálogo entre as partes:

Fafali Kouodawo: É uma iniciativa bem vinda, embora venha um pouco tarde. A solução na Guiné-Bissau passa por um directo diálogo entras as partes envolvidas.

Nádia Issufo: Pode se interpretar esse diálogo como a base para o lançamento de negociações directas?
FK: Com certeza, o diálogo é que poderia abrir o caminho para negociações que desemboquem numa solução viável. E neste momento em que as posições estão muito rígidas é necessário que haja um diálogo directo entre as partes. O país em causa é a Guiné-Bissau e as pessoas em causa são os guineenses, então é melhor que eles dialoguem a acertem as posições e de seguida que informem aos seus apoiantes para limarem as dificuldades. Penso que isso é melhor do que ter sempre intermediários que tem  as suas próprias estratégias e interesses a defender, e pode ser que esses interesses não sejam convergentes com os interesses guineenses.

NI: O braço de ferro entre a CEDEAO e a CPLP em que medida dificultam o alcance de uma solução para a Guiné-Bissau?
FK: Não há razão de ser este braço de ferro. Há uma tradição internacional segundo a qual uma organização regional tem a pro-eminência na resolução de um conflito. No caso vertente a CEDEAO, a Comunidade Económica dos Estados da África do Ocidental, é que está mais próxima do foco do conflito. A Guiné-Bissau é membro da CEDEAO, e esta organização recebeu o mandato da ONU de procurar soluções.

NI: Tanto Serifo Nhamadjo como Raimundo Pereira não discursaram na 67ª Assembleia-geral da ONU na semana passada embora tenham estado lá. Que leitura se pode fazer da posição da ONU?
FK: Normalmente as Nações Unidas não são parte de um conflito. A ONU deveria estar no meios das partes, mas a ONU tornou-se o palco em que as partes mostraram a luz do dia todas as dificuldades que o país tem neste momento para se reencontrar. É um acontecimento sem precedente na história da Guiné-Bissau independente, é um acontecimento que marca profundamente os guineenses, porque o país começou a falar na tribuna da ONU antes da independência, colocando Portugal numa dificuldade enorme no plano internacional. Hoje a Guiné-Bissau é que está numa posição difícil e humilhante nesse mesmo plano. Por isso teria sido melhor se tivesses concertado antes para que o palco em que a Guiné-Bissau obteve a sua maior glória não se torne o palco em que vai obter a sua maior vergonha.   

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Haverá ou não dois poderes dentro da Frelimo?




Armando Guebuza deverá continuar a dirigir a FRELIMO, o partido no poder em Moçambique, apesar de não ter o total apoio da formação. Espera-se apenas pela confirmação que sairá da X Conferência da Frelimo, a ter lugar no próximo dia 22. O ponto da questão é que não podendo se recandidatar como presidente do país, pois vai já no segundo mandato, não pode também comandar o partido no poder, segundo o histórico da FRELIMO. Entretanto, as razões para a sua continuidade são associadas também ao seu interesse em tirar proveito dos recursos naturais descobertos no país. Conversei com Alfiado Zunguzea, analista político do Centro de Estudos de Resolução de Conflitos "Justa Paz": 
 


Nádia Issufo: Quais são as expectativas para o X Congresso da Frelimo?
Alfiado Zunguza: Uma delas é saber quem será o próximo candidato do partido nas próximas eleições presidenciais. A outra é o posicionamento do partido em relação as linhas estratégicas que poderão guiar o desenvolvimento do país, especialmente na redistribuição da riqueza nacional, tendo em conta as potencialidades que o país agora vem evidenciando na área dos recursos naturais, especialmente na área dos gás e do petróleo. No geral não haverá grandes mudanças do ponto de vista ideológico e das grandes orientações políticas do partido.

NI: Na últimas sessão do comité central da Frelimo foi visível a tensão, com algumas figuras da velha ala a não concordarem com a recandidatura de Armando Guebuza a presidência do partido. Podemos considerar este momento como uma verdadeira evidência de cisões no seio do partido?
AZ: Creio que sim, uns queriam que ele se recandidatasse pela terceira vez a presidência da República, e isso significaria alterar a Constituição e acredito que ninguém estava disposto a viver situações semelhantes as dos países vizinhos, como a Zâmbia e o Malawi. Aliado a isso é preciso entendermos que a própria eleição de Guebuza criou um pouco de alienação interna por parte daqueles que se diziam da ala de Chissano, e um terceiro mandato significaria isso e eles não estão a vontade com isso. Com todas as consequências económicas e políticas ao nível interno e externo que isso iria representar. A outra linha da discórdia é a recandidatura de Guebuza a presidência do partido. Recuemos um pouco na história, quando ele foi eleito, Chissano era presidente do partido, e houve uma necessidade de Armando Guebuza assumir a presidência do partido porque se dizia que seria complicado haver dois poderes dentro do partidos, um presidente da República e o presidente do partido que traça as linhas estratégicas da governação do país. Este é o debate do momento. Mesmo a eleição de Guebuza deverá sofrer contestação, mas depois poderá acontecer o mesmo que aconteceu com Chissano, ou seja, ele deverá ser convidado a renunciar ao cargo para evitar clivagens internas.

NI: Apesar de tudo Guebuza reuniu apoios. Como se explica isso?
AZ: Há o politicamnte correcto e há as atitudes. Naturalmente que todos os membros do comité central não podem negar o apoio a ele. É arriscado fazer isso, há uma certa disciplina partidária. Se o próprio secretário-geral é o primeiro a dar o apoio, então os outros devem segui-lo. Se algum membro se mostra contrário as posições internas as suas chances de ascender dentro do partido também se tornam diminutas.

NI: Pode ainda acontecer uma reviravolta no seio da Frelimo neste X Congresso?
AZ: Creio que não. As coisas deverão andar como o previsto, do ponto de vista da re-eleição de Guebuza como presidente do partido. A mudança só poderá acontecer depois da eleição do presidente da República.

NI: O que se pode esperar da Frelimo nos próximos tempos face as divergências internas que vem ao público agora com mais frequência?
AZ: Para a Frelimo se tornar coesa terá de se abrir mais ao diálogo interno, e não pautar apenas pela disciplina partidária, onde quando o chefe decide todo o resto tem de cumprir. É a própria sobrevivência do partido que estará em risco se houver cisões. Como agora por exemplo, grandes figuras do partido já se manifestam contra, o que não acontecia antes.  Isso mostra que a filosofia interna tem de mudar. Caso contrário teremos uma situação idêntica a da África do Sul.

NI: A recandidatura de Guebuza acontece numa altura em que são descobertas quantidades inestimaveis de recursos naturais. Sabe-se que o presidente domina o mundo dos negócios no país. Será que ele pretende tirar partido disso através da sua posição?
AZ: É uma linha de interpretação dos factos, uma vez que ele tem também investimentos na área de recursos naturais. Pode ser interpretado do ponto de vista pessoal assim. Mas também poder visto, do ponto de vista estratégico, de envolvimento, não só do partido, mas de como o processo de exploração não seja alterado para o beneficio de próprio partido, de empresas em que o partido tem participações. E também para que do ponto de vista de estratégia nacional não haja uma alteração se houver uma outra chefia do governo. Muitos dos acordos poderiam ser re-equacionados, mas penso que o tempo nos ajudará a clarificar esta situação. 

 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Weiss Visum

É o meio legal para residir na Europa frequentemente usado por africanos. Através do casamento de um europeu e um africano este último obtém, por direito, o visto de residencia. Assim, isso se transformou num negócio com esquemas bem sofisticados, sempre na mira da polícia. Ou seja, trata-se de uma lei que se pode tornar "ilegal". O amor, a instituicao família, os valores da uniao, que nao constam de nenhum instrumento legal  escrito pelo Homem, servem aqui para justificar as autoridades que o casamento é verdadeiro.
Se para os africanos o weisse visum, ou visto branco em alemao, é no verdadeiro sentido da palavra, a garantia de permanecer tranquilo e para sempre no "El-dorado, para algumas europeias eles representam a tabua de salvacao. Por exemplo, esse visto nao tem apenas a cor mágica, ela tem também...

O peso do visto
Mulheres brancas muito gordas ao lado de homens de estatura média, e alguns até quase anoes, sao uma quadro comum nalgumas cidades alemaes. Na minha cabeca podre, imagino o homem a morrer sufocado com tanta carne por cima. Alguns com ares mesmo de vulgares casados, nao falam muito. O elemento que estabele a principal ligacao entre eles é o mulatinho que se agita inocente no carrinho. Tento transpor o semblante para confirmar se o ar pensativo e triste deles tem a ver com o visto, mas claro, esses delírios meus se acomodam sem resposta, até a próxima oportunidade.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Lei angolana dos partidos políticos visa destruir a oposição, diz o PP


 Em Angola o artigo 33 da lei dos partidos políticos prevê a eliminação de um partido, por decisão do Tribunal Constitucional, se este não atingir os 0,5% do total de votos expressos nas eleições legislativas. O mesmo artigo prevê também a mesma sanção a partidos que não participem por duas vezes consecutivas, isoladamente ou em coligação em qualquer eleição legislativa ou autárquica, com programa eleitoral e candidatos próprios. Assim estão ameaçados vários partidos, até a Nova Democracia que na legislatura passada esteve no Parlamento. Outro que nem sequer conseguiu participar nos últimos dois pleitos foi o PP. Entrevistei para a DW o seu secretário-geral, David Mendes, que começa por criticar a lei: 

David Mendes: Essa é uma medida administrativa que pretende afastar algumas figuras do processo democrático que o país está a viver. Um partido não pode ser afastado, sob o ponto de vista administrativo, só porque não conseguiu concorrer em eleições. Se o argumento usado fosse a falta de atividade do partido,  de facto, talvez ai se justificaria. Mas o Partido Popular (PP) tem referência nacional e não só, ele existe realmente que demonstra a nossa existência política.

DW África: Então a lei em causa pode aniquilar a oposição?
Davida Mendes (DM): Visa esse objetivo. Veja o exemplo da Nova Democracia, como aceitar que um partido que esteve quatro anos no Parlamento, porque não atingiu 0,5% dos votos nestas eleições, é automaticamente extinta. Isto não tem uma explicação lógica. Qual é a razão que leva a extinção de um partido por não ter atingido os 0,5%? São medidas que visam impedir um verdadeiro movimento político em Angola.

DW África: A lei implica aos partidos políticos mais pequenos algum esforço adicional para a sua sobrevivência. O que o PP pretende fazer?
DM: Vamos criar todas as condições para re-fundar o partido. A lei exige 7500 assinaturas, nós temos mais do que este número em todo o país, e em menos de uma semana podemos reunir todos elementos constitutivos para que o partido volte a  ser aceite pelo Tribunal Constitucional. Para nós este não é um verdadeiro inconveniente.

DW África: Fora a época eleitoral, quais são as atividades do seu partido?
DM: Somos dos poucos partidos virados para a luta contra a corrupção. A nossa atividade está direcionada para os casos de corrupção e desvio de fundos e trazer esses casos a conhecimento público. Fazemos isso a nível nacional, desde os governos provinciais, as administrações, e, como é obvio, a presidência da República. Temos dado apoio as outras organizações da sociedade civil, particularmente no exercício do direito a manifestação. Temos estado em quase todas as manifestações, quer a nível nacional, quer a nível provincial.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O que é um sapato?



Andar descalço em África no tempo colonial era associado a inferioridade social. Pode-se considerar até que o sistema de castas invisível instituído era basicamente determinado, numa primeira fase, por duas condições: os que dominavam tinham os pés cobertos, e os dominados não.

Na literatura, principalmente a africana, esta situação é frequentemente repescada. No romance "As visitas do Dr. Valdez", de João Paulo Borges Coelho, um dos personagens, negro moçambicano, diz: "Jeremias lhe disse que é humilhante andar descalço". No livro de Pepetela "A sul. O sombreiro"  esta simbologia é também representada, mas aqui o escritor apresenta o sapato também como instrumento de tortura no pé do dominador: "As bolhas de água não lhe largavam os pés. Bolhas que depois rebentavam em dores intoleráveis. Sabia, era de andar longas caminhadas com botas altas no calor sufocante."

Como o poder maltrata não é? Outra questão lógica, mas muitas vezes ignorada por quem usa sapatos, tem a ver com o clima. Num calor de 40 graus só um masoquista quer se enfiar dentro de sapatos. Portanto, a indumentaria de cada povo tem a ver também com isso e com o conforto, uma mensagem deixada bem clara na última obra de Pepetela.

Mas o sapato como símbolo de poder é claramente explicado nesta obra: "As botas de montar eram signo da sua condição de cavaleiro e acima de todas as dores devia ficar sempre a insígnia de nobreza."

Anos depois das independências no continente, o sapato continua a ser o elemento de "separação" entre os que tem e os que não. Também é o barómetro de avaliação usado por alguns para medir o estágio de desenvolvimento dos países. Repesco uma citação do escritor sueco Henning Mankel, entrevistado por mim em Maputo há quase três anos: "Quando cheguei aqui (em Maputo), fiquei fora do teatro ver as pessoas a passarem e quase ninguém tinha sapatos. Agora aqui todas as pessoas têm sapatos, dois, três, quatro pares de sapatos... Claramente estou a ver um grande desenvolvimento. Mas a coisa mais importante é que há paz que esta cá para ficar."

Teoricamente a colonização acabou, mas os símbolos permanecem intactos, com a mesma capacidade destrutiva e separatista.


Mas há contextos em quem o sapato pode representar o fim da dignidade humana. Por exemplo, os milhares de sapatos expostos no museu que outrora foi o campo de concentração de Auschwitz na Polónia, fez-me perceber de forma angustiante e quase real o sofrimento dos prisioneiros. Nem o conjunto de malas, ou de roupas é tão expressivo quanto o sapato. Igual situação se aplica ao fim de uma manifestação violenta, por exemplo. Um campo de batalha decorado com sapatos de forma aleatória pode indicar o nível de violência ou o desespero das pessoas.


Nalguns lugares da Europa o sapato ganha um significado sui generis actualmente. Dá gosto a alguns jovens andar de sapatos sujos, quase nojentos, e rasgados. Quase não se olha duas vezes para eles. Claro que é uma marca de rebeldia e uma forma de marcar a diferença. Mas entendo isso como um escangalhar, sem consciência e sem intenção, de um separador de classes. Ou seja, arrisco mesmo a ousar pensar que essa atitude irreverente dos jovens é o indicio do inicio do homicídio do elemento que estratifica o Homem...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Era uma vez uma avestruz chamada ANC...

que meteu a cabeça na areia. Expulsou Julius Malema do partido, preferindo fazer de conta, ou mostrar, que a África do Sul não tem problemas. Mas a crise é latente com vários barris de polvora prestes a explodir, um a um, a qualquer momento. E as manifestações de marikhana representam apenas um barril, de grandes dimensões, diga-se de passagem. E qual será a potência do último barril se a técnica da avestruz persisitir?

O governo do ANC meteu os pés pelas mãos consecutivamente, e queimou-se. A polícia local assassinou os manifestantes, num festival de tiros de fazer inveja a hollywood. O responsável ainda não foi punido, espera-se pelos resultados de um inquérito. Tentando virar o jogo no meio de atrocidade, que entretanto o governo está a tentar remediar com falas mansas, a justiça direcionou-se contra os manifestantes acusando-os de inúmeras violências. Face a esta despautério, a sociedade civil se insurgiu fazendo com que a justiça voltasse atrás e ganhasse vergonha, mas o brio, esse a justiça nunca teve. A tensão aumenta com repetidas greves que se alastram a outras minas. O governo definitivamente não tem o domínio da situação.

E para piorar entra em cena Julius Malema, persona non grata no ANC, a instigar as revoltas. Não eram as desigualdades sociais a grande preocupação deste líder juvenil? Logo, esta é uma boa oportunidade para voltar a ribalta, em grande, e enfrentar o ANC de Jacob Zuma. Lembremos que o jovem sempre defendeu a nacionalização das minas, como forma de trazer mais equílibrio na distribuição de rendas. Terá sido este o principal motivo para o afastamento dele? É verdade que Malema tem o seu lado arruaceiro que deve ser resolvido, mas convenhamos que o fim do Apartheid deixou cancros que são uma espécie de tabu para o governo...

E para enfraquecer mais ainda o partido histórico, as divisões internas estão bem patentes. O discurso de "recuperação" dos ideiais do ANC "original", são um apelo emocional com grande peso neste momento. E esta é uma arma que Julius Malema definitivamente não dispensa nesta batalha. Sim, batalha, porque parece que esta é uma guerra que ainda vai no princípio.

Mas a questão de fundo que se coloca é: deixar a maioria branca ou de estrangeiros continuarem a dominar a economia foi uma medida acertada? Outra questão: quais são os riscos da África do Sul transformar-se numa espécie de Zimbabwe? Quais são as chances da revitalização do ANC?





terça-feira, 4 de setembro de 2012

Legitimidade de JES carimbada por observadores africanos

Ainda sobre a legitimidade da continuidade de José Eduardo dos Santos no poder entrevistei, para a DW, Markus Weimer da Chatham House. O pesquisador optou por não vaticinar nada, e até mostrou optimismo ao dar o seu voto de confiança ao trabalho feito pelos observadores das missões africanas. 

Markus Weimer: Tinha dúvidas sobre o processo, que também foram levantadas pela UNITA e CASA-CE. Acredito que eles vão contestar alguns resultados, mas também tem de se reconhecer que os observadores, de uma forma geral, aceitaram o processo e julgaram-no satisfatório. De um modo geral a oposição ganhou, se comparado com o escrutínio de 2008, o que vai ser bom para a democracia angolana.

MW: A legitimidade depende muito desse processo que foi considerado positivo pelos observadores, mas a oposição ainda tem dúvidas. Então a legitimidade depende do processo.

NI: A CASA-CE conseguiu apenas 5,6% dos votos. Espera mais dela?
MW: Não diria apenas, porque para um partido criado poucos meses antes das eleições teve até bons resultados. Eles são a terceira maior força de Angola agora, é um grande sucesso histórico entrarem no Parlamento.

NI: Não acha uma contradição as manifestações contra JES e a sua vitória esmagadora?
MW: Acho que são duas coisas um pouco diferentes porque a legitimidade do processo já foi aprovada pelos observadores. Nos protestos não movimentaram-se as massas, eram poucas pessoas. Acho que não se pode comparar. Tem de se ver também o momento dos protestos no país, havia vários debates sobre personalidades locais. Acho que a motivação era um pocio diferente. Estas eleições abriram a possibilidade as pessoas de votarem.

NI: A UE não enviou observadores a Angola. Isso prejudicou o processo?
MW: É uma pena que não houve mais observadores internacionais. Com as queixas da oposição a presença deles teria mais peso.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Agora sim, a (i)legitimidade de José Edurdo dos Santos!


Depois de 32 anos no poder, e com quase 70 anos de idade, pela primeira vez José Eduardo dos Santos vai dirigir Angola eleito democraticamente. Um facto histórico para o país esta legitimidade que foi confirmada pelas missões de observação eleitaral da SADC, União Africana e CPLP, mas que internamente é contestada com base em princípios democráticos, segundo o defensor dos direitos humanos angolano Rafael Marques, entrevistado por mim para a DW. Marques diz que JES tem de justificar a legitimidade nos próximos cinco anos.

Nádia Issufo: O MPLA ganhou e JES continua então na presidência de Angola. Então pode-se dizer que agora ele está legitimamente no poder depois de 32 anos sem eleições?

Rafael Marques: É importante reiterar que estas eleições não representam a livre expressão do povo para uma nova liderança. Pela forma com as eleições foram manipuladas, pelo descontentamento que cresce na sociedade e que se manifestou até nos niveis de abstenção em Luanda. Penso que haverá cada vez mais pressão social e política e esse será o teste para o presidente porque vai ter de justificar muitas coisas e os niveis de tolerância sobre os seu actos serão cada vez menores.

NI: Está a dizer que ele terá de justificar essa legitimação que conseguiu com uma maioria?
RM: Ele não foi legitimado, porque as pessoas não votaram para um presidente, mudou-se a Constituição precisamente para permitir que JES não se submetesse ao voto popular. Por isso esse modelo de eleição é anti-democrático. Porque não permite nem as pessoas, nem ao Parlamento, que são os dois modelos modelos universais, a terem espaço em Angola.

NI: A seu ver a oposição tem força suficiente para contestar o regime?
RM: A oposição não tem força suficiente, ela precisa de uma liderança esclarecida e congregadora. Penso que nos próximos anos vão criar dinámicas que criem lideranças mais acutilantes e com maior capacidade de congregação de forças políticas que precisam de rumos e criar sinergias para promover a mudança.

NI: Em relação as missões de observação, a União Europeia optou por não participar. Destacaram-se as missões das organizações africanas das quais Angola faz parte. Qual o seu parecer sobre as missões africanas?

RM: Olhemos para a SADC e para o tipo de eleições que temos tido e o comportamento da SADC. Não é uma organização credível, capaz e veio a Angola praticamente derrubar o resto que lhe resta de reputação. Esteve praticamnete ao serviço deste regime. Da mesma forma que falamos da CPLP, da qual não se esperava posicionamento diferente. A questão continua a ser como mobilizar os angolanos porque só os angolanos podem e devem conferir legitimidade as eleições. Não é a SADC que vive os problemas de Angola, que viu milhões de angolanos negados a votarem porque os seus nomes foram transferidos para outras províncias. Esse é um problema exclusivamente angolano e este povo tera de ter a capacidade de entender isso.

Leia mais sobre o tema em:  http://www.dw.de/dw/article/0,,16217654,00.html

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Portugueses em Moçambique, uma praga?



Se os moçambicanos não o dizem com palavras, então referem-se a eles como se o fossem. É comum ouvir-se frases do género: "Esses tugas estão em todo o sitio!", "Vai ao restaurante piri-piri e vais encontrar tugas sentados lá o dia todo a beber café", "Veio ao meu serviço a procura de emprego e sem marcação pediu para falar com a minha boss que é portuguesa". E assim segue. A expressão facial dos moçambicanos é mais reveladora do que as palavras que proferem.

A crise económica que atinge Portugal e a recente descoberta de recursos minerais em Moçambique, alvo de grandes investimentos, está a atrair portugueses para o país. A esperança de uma oportunidade de emprego ou de negócios é o que muitos trazem na mala. Alguns levam de volta na bagagem decepções, afinal Moçambique não é exactamente o que estavam a espera.

A grande preocupação é avaliar as consequências da entrada massiva de portugueses, e saber se o governo está a tomar medidas preventivas para que os moçambicanos não se sintam prejudicados com este imigração. Não tenho nada contra a imigração, pelo contrário, mas sim sou contra lesar os nacionais ao se favorecer estrangeiros.

Moçambicanos em primeiro lugar
E muitos exemplos e situações podem ser listadas, por exemplo, o português obtém o visto de entrada nos aeroportos do Moçambique, enquanto que o moçambicano para entrar em Portugal tem de passar por um processo burocrático tão longo como se quisesse ir a lua. Quando o governo moçambicano vai acabar com esta desigualdade? Quem verifica se os portugueses tem condições financeiras para estarem no país? Se tem acomodação? Se passagem tem dois "vês"? Como se vai sustentar? Quem o convidou? etc

Em termos de absorção de mão de obra, a lógica deveria ser privilegiar os nacionais. Já sei que existe uma lei sobre isso, mas consegue-se fazer valer na prática? Absorver o que não temos, é justo, mas que não se adquira o que a casa já tem.

"Pés de fada" sobre escadas moçambicanas
Antigamente, há sensivelmente 15 anos, não era comum ver se portugueses a conviverem com os moçambicanos. Havia uma espécie de "Apartheid". Hoje isso mudou. É verdade que a mentalidade de muitos portugueses e moçambicanos mudou, é gente jovem e esclarecida. Em Maputo vê-se alguns portugueses em grandes conversas com os nacionais em cafés, ao que tudo indica o tema é negócios. Sabe-se que para que um estrangeiro se dê bem a esse nível tem de se associar a um nacional. Isso leva-me a duvidar que essas situações sejam movidas ou ditadas por algum esclarecimento sobre igualdade, humanidade, ou fraternidade entre povos... Os moçambicanos podem estar "a servir de escadas" para os portugueses, como diz um amigo meu. Só que escadas que não são pisadas descaradamente como antigamente...





terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sarkozy fora, Costa do Marfim regressa as tensões

A saída de Nicolas Sarkozy da presidência francesa já está a influenciar a situação política da Costa do Marfim, por via da (in)stabilidade. Os ataques ao exército costa-marfinense e ao quartel no incio deste mês são o primeiro sinal de um despertar já previsto dos apoiantes de Laurent Gbagbo, o ex-presidente do país. E a resposta aos ataques chegou alguns dias depois, uma delegação do partido de Gbagbo foi atacada quando decorria uma reunião. 

Conduzido pelo ex-presidente francês, e com o suporte das tropas da ONU no terreno, Alassane Ouattará conseguiu subir ao poder, tirando Laurent Gbagbo de lá. Neste processo quase reacendeu a guerra civil que resultou na morte de mais de 3000 pessoas. O atual presidente, que gozava de simpatias junto de Sarkozy, tinha praticamente o poder em mãos. Um facto que muda agora com a nova política de François Hollande que disse em Paris que quer estabelecer uma nova política com as suas ex-colónias. O seu discurso parece menos ditador e extremista, como era o seu antecessor. Finalmente a França dá sinais de esperança para uma relação de menos imposição a outros fancofonos concedendo-lhes realmente alguma independência. Mesmo que isto custe antes alguns litros de sangue, como pode vir a acontecer na Costa do Marfim...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

UNITA organiza manifestações contra irregularidades eleitorais

Em Angola a UNITA convocou uma manifestação para sábado passado, contra supostas irregularidades da CNE no processo eleitoral. O maior partido da oposição chamou, por isso, todos os cidadãos para exigirem um processo transparente e justo, mas de forma pacífica. Entrevistei para a DW o porta-voz do partido, Alcides Sakala, na véspera.

Nádia Issufo: O que leva a UNITA a realizar a manifestação?
Alcides Sakala: A manifestação é pela paz, democracia e sobretudo pelos respeito a lei. Queremos que se introduza em Angola a cultura de respeito a lei. Isto por causa da forma como a CNE está a conduzir o processo eleitoral. Nós verificamos nos últimos dias um conjunto de situações irregulares que violam a lei. São questões importantes para a credibilização do processo que vão desde problemas das actas simples, a questão das listas, a auditoria e outras questões que não tem sido salvaguardadas. Porque parece não haver vontade da CNE que sofre uma grande influência do executivo angolano. Por isso achamos que deviamos organizar esta manifestação para a defesa da legalidade e da paz.

NI: Qual foi a reação da CNE face as vossa queixas?
AS: Apresentamos um memorando a CNE na última sexta-feira. Também entregamos o documento a comunidade diplomática acreditada em Angola e a missão de observação da SADC. Em resposta a CNE criou uma Comissão que vai, segundo dizem, analisar o nosso memorando e eventualmente produzir algumas recomedações.

NI: Caso não sejam resolvidas as irregularidades constatadas o que pretendem fazer?
AS: Queremos manter um discurso positivo. Penso que os homens de bem, com sentido de história de Estado tem de se pautar por um diálogo estruturante. Vamos dar inicio a um processo que tem de conduzir necessariamente a institucionalização dos processos eleitorais. Imagina que sempre que tivermos eleições se estabeleça este braço de força entre a sociedade civil, partidos e a CNE. Isso não seria bom para credibilizar processos que serão recorrentes no nosso país.


Mais sobre o tema para ouvir e ler em:

http://www.dw.de/dw/article/0,,16189464,00.html

domingo, 26 de agosto de 2012

A segregacao veio a tona com os raptos em Mocambique

Nao sei se fico mais chocada com os mocambicanos ou com o seu governo no caso da uniao das comunidades muculmana, hindu e ismaelita contra o governo.  Por causa da indiferenca das autoridades mocambicanas nos raptos de dezenas de empresários mocambicanos de origem asiática e consequente exigencia de pagamento de resgates, essas comunidades pretendem dar a devida resposta para os chamar a razao.

Vejo agora gente supostamente esclarecida a demonstrar atitudes segregacionistas assentes em sentimentos de superioridade com discursos do tipo: "como o governo pode ficar refem de algumas comunidades?". Os membros dessas comunidades sao tao mocambicanos com os outros, por conseguinte tem os mesmos direitos e obrigacoes. Na ausencia de respeito que se faca a justica. Nao olhemos para essas comunidades como os "outros", ou "aqueles", somos nós. Na hora dos raptos a maioria, que nao pertence a essas comunidades e que se consideram os "legítimos" mocambicanos, nem reagiram, afinal nao era nada com os mocambicanos.

A reacao de alguns mocambicanos mostra que muitos estao subjogados pelo conformismo e o "deixa andar", que aliás é uma mal que o governo quer combater. Estao habituados a falar mal em espacos como facebook e cafés da cidade, mas na hora da verdade nem um pio. Deceriam aprender os bons exemplos como os dessas comunidades, e de certeza que Mocambique seria um pouco melhor.

A única forma de lidar com um governo que nao cumpre com as suas obrigacoes e atingi-lo pelo lado mais doloroso, o voto e o bolso. Já que os apelos dos líderes religiosos muculmanos para a resolucao dos casos foram ignorados, e a decadente polícia mocambicana estava de bracos cruzados num primeiro momento.
Sendo estas comunidades atingidas por terem importantes empresários, entao que seja também por ai que se atinje o governo. Páram o comércio e lesam a economia do país, já que eles só sao mocambicanos nesse sentido, e para pagar impostos.

Isso é democracia sim, o governo esta no poder para defender os interesses do povo, de todo o povo, diga-se. Se nao for assim, entao que nao conte com o apoio dos lesados. Isso sim, e liberdade, democracia e igualdade. Princípios que deveriam ser válidos para todos. Portanto, mocambicanos pseudo-instruídos, nao se deixem cegar por sentimentos desumanos, que ao que tudo indica a Universidade nao vos conseguiu apagar e muito menos a família. Justica e solidariedade devem se sobrepor a mesquinhez que insiste em vos envergonhar.

E esta agora sr. Guebuza?

Se a Frelimo, partido no poder em Mocambique, nunca quis assumir as suas divergencias internas, agora nao tem como. Se nao o fizer com palavras, entao fará com decisoes. A VII sessao do comité central do partido que governa Mocambique esta a deixar bem claro as posicoes que serao assumidas no X Congresso do partido, a ter lugar em Setembro, quanto a conducao do partido e do país.

A lei mocambicana só pemite dois mandatos presidenciais, o que Armando Guebuza está prestes a concluir. O presidente da Frelimo, é também presidente do país. Entretanto, pelos comportamentos de uma ala do partido está evidente que se quer fazer a "viragem" dentro do próprio partido ao manter Guebuza como seu presidente, embora tenha de abandonar a presidencia do país em 2014.

Isto porque ao nível da Constituicao a Frelimo nao teve coragem para aumentar o número de mandatos. Recorde-se que a Frelimo até testou a oposicao, sociedade civil e populacao ao anunciar que iria rever a Lei mae, sem entretanto anunciar os pontos. A reacao "vem quente que estamos a ferver" cortou a segunda perna da Frelimo. Porque o facto de o governo da Frelimo ser ainda dependente da comunidade internacional já o tinha deixado meio deficiente há muito tempo.

Para que Guebuza continue a mandar em Mocambique nao lhe resta outra saída se nao lutar pela presidencia do partido, e através dela manipular a marionete que possivelmente seria o futuro presidente. Só que "os mais velhos" da Frelimo, já se mostram contra este aparente manobra. Mais sobre o assunto para ler em: http://www.opais.co.mz/index.php/politica/63-politica/21796-historicos-da-frelimo-nao-concordam-com-proposta-de-paunde-de-dois-centros-de-poder.html

O crescente domínio de Armando Guebuza na área empresarial mocambicana tem sido alvo de criticas ao nível local, afinal resta pouco para outros jovens empresários, a populacao que qestiona para além da sociedade civil e oposicao. A nível internacional a imprensa tem "denunciado" os seus interesses comerciais com artigos sem fim.

A médio prazo Mocambique será sem dúvida uma das grandes reservas de matérias primas de África. Muitos mocambicanos vem na descoberta de hidrocarbonetos uma oportunidade de enriquecerem, e estrangeiros também. A sua exploracao, entretanto, ainda nao é para já, altura em que por coincidencia termina o mandato do presidente do país e também um dos maiores empresários de Mocambique.

A pergunta que coloco agora é: esta suposta contestacao no seio da Frelimo é para parar a suposta sede de Guebuza pelos negócios ou terao os contestários também os seus interesses nesse momento que se avizinha? Também se diz a boca pequena que a Frelimo reivindica maior participacao nos importantes negócios como forma de poder financiar mais folgadamente as suas actividades políticas, e o domínio de Armando Guebuza nao estaria a facilitar isso.

O que escrevo nao é uma revelacao para muitos mocambicanos, mas nao podia deixar de apresentar uma das partes sordidas de uma luta pelo poder em nome de riquezas que devem beneficiar os mocambicanos em primeiro lugar. Todo o futuro de Mocambique está já a ser engendrado na certeza de que o país continuará nas maos da Frelimo.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A nacionalidade de Deus

filho: mama, porque eu não sou Deus?
mae: porque queres ser Deus meu filho?
filho: para ter muitos poderes.
mae: o mais poderoso do mundo é só Deus.
filho: mãe, Deus na Alemanha é alemão ou português?
mae: Deus não tem nacionalidade.
(e eu penso: se Deus fosse português Alemanha seria a casa de uma Maria e não de Angela...)
filho: mãe, em Moçambique Deus é português?
mae: porque em Moçambique Deus seria português??
(e eu penso: já foi um dia e tenta agora de novo. Espero que os moçambicanos não deixem)
filho: Esta bem mãe, em Moçambique Deus é moçambicano.
mae: ahhh...
(e eu penso: sim, em Moçambique Deus tem direito a ter nacionalidade, pelo menos uma vez na vida. Mas alguns moçambicanos já ocuparam o cargo)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Frelimo baixa o veu do voto

Uma ameaça da comunidade muçulmana fez o governo moçambicano recuar imediatamente e autorizar as muçulmanas a usarem o véu nas escolas. É uma falsa desculpa dizer que Moçambique é um Estado laico para legitimar a proibição do véu. Afinal ele sempre o foi, e por isso as freiras andaram sempre cobertas por véus, hindus a sua maneira e por ai a fora, e ninguém disse nada e a paz reinava no país. Veio alguém para levantar o véu e os muçulmanos levantaram a laia...

Parece que houve um efeito contágio. Na Europa a tendência para proibições cresce, a França ultrapassou-se na minha óptica. O governo mocambicano talvez num laivo "ocidental"  tenha tomado a decisão. Mas a  relação de Moçambique com os Islão não é igual a relação do Islão com os outros países. A luta da França prende-se com questões de poder.  Um patamar do qual Moçambique não faz parte. O Islão em Moçambique faz parte do gene de uma parte da sua história, e isso não se apaga levantado o véu. Eles representam cerca de 30% da populacao.

Tal como o partido no poder nao pode, de forma alguma, apagar os muculmanos nas eleicoes e na angariacao de fundos para a caca ao voto. Tudo tem um preco, e cada um deve saber se esta em condicoes de arcar com as consequencias. Caso contrário, é o que se ve.

Para mim a posicao da comunidade muculmana mostra por um lado que há no país a nocao do voto consciente. Afinal vota-se também em quem salvaguarda os nossos interesses. Se eles sao bons ou nao isso e outro assunto. É o preco da democracia. Por outro lado mostra que o governo mocambicano nao tem maturidade e seguranca e por isso é frágil. Por isso ele está sujeito a ficar refém de qualquer um.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

CIP critica tratamento que lei anti-corrupção está a ter no Parmalento moçambicano

Em Moçambique a Assembleia da República realizou na última semana uma consulta pública sobre a revisão do Código Penal, no âmbito do pacote legislativo anti-corrupção. Este processo, entretanto, é contestado pelo CIP, Centro de Integridade Pública, que o considera uma duplicação de tarefas, pois o mesmo já foi levado a cabo pela UTREL, Unidade Técnica de Reforma Legal e sociedade civil. O CIP considera ainda que as leis anti-corrupção tem de ser imediatamente aprovadas independendemente da revisão ou produção dum novo Código Penal, caso contrário as instituições anti-corrupção continuarão de mãos atadas. Entrevistoi Baltazar Fael do CIP, para a DW, a quem começou por perguntar se a nova consulta é um plano para atrasar a implementação da lei:

Baltazar Fael: Não queremos dizer que há um propósito de atrasar a aprovação do pacote anti-corrupção. O que queremos dizer é que há um exercício que neste momento não é necessário, de voltar a debater a parte de crime de corrupção e conexos que foi integrada dentro do código penal. Isto porque já houve um debate que produziu a anti-proposta de lei que foi submetida ao parlamento. Agora cabe a Assembleia da República fazer a análise das várias contribuições colhidas pelo país e harmoniza-las de modo a produzir um documento.

Nádia Issufo: Porque terá o Parlamento ignorado esses contributos da sociedade civil e da UTREL?
BF:  No que vão dar esses debates de 1 e 3 de Agosto, pensamos que não deverá ser diferente das consultas já realizadas em 2010. Elas foram bastante amplas, em que não se escolhia quem devia estar lá e nem o número de pessoas. Mas agora limitaram o número de participante no debate para 100. E perguntamos quem são essas pessoas? E porque não podem participar outras que podem dar contributos valiosos? Portanto, há aqui um processo que não está muito bem explicado, o que nos levar a dizer que a nossa Assembleia da República ou não está bem preparada para produzir documentos da complexidade de um código penal, ou está interessada em atender outro tipo de agendas que desconhecemos. Mas que há um atraso, e que algumas leis que já foram aprovadas neste código penal não poderão ser aplicadas sem a aprovação do código penal. É preciso correr contra o tempo na aprovação deste instrumento  


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O estilo austral na União Africa

A União Africana ganhou nova roupagem com a eleição nova presidente da Comissão da organização. Apoiada pela SADC, a sul-africana Nkosazana Dlamini Zuma poderá transmitir a União Africana os valores que caracterizam a SADC tais como união, credibilidade e força. Mas existem outros pontos ainda que jogam a seu favor de acordo com António Gaspar. Entrevistei o analista político moçambicano para a Deutsche Welle sobre o tema, acompanhe:


António Gaspar: Eu acho que sim, primeiro ela é uma mulher, em 49 anos da organização nunca houve uma mulher a frente. Portanto, isso aumenta valor e acrescenta expectativa. Segundo, é a primeira representante da SADC, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral. Esses dois aspectos permitem-nos visualizar que sim. A liderança da Comissão pela senhora Dlamini-Zuma vai trazer valor acrescentado. E alguns aspectos fundamentais penso que serão mudados sem perder a perspectiva de que está a dirigir uma organização continental e não uma regional, apesar de ter sido apoiada pela SADC. Outros aspecto importante é que ela terá de fazer um esforço adicional para trazer para a gestão dos assuntos da União Africana mesmo daqueles que votaram contra ela. A perspectiva tem de ser supra regional de modo a preservar os interesses dos povos africanos.

NI: A SADC apresenta uma imagem de união e credibilidade, o que lhe confere respeito internacional. Acha que esta organzação, através de Dlamini Zuma vai transferir as suas qualidades a União Africana?

AG: Na região o sentimento que existe é que temos, através da senhora Zuma, de fortaçecer e consolidar a unidade no seio da União Africana. E levar a experiências e o calor, o sentimento de coesão e acção que existe na SADC para a União Africama.

NI: Então isso vai permitir a União Africana estar ao mesmo nível que outras organizações internacionais e discutir a mesmo nível?

AG: Acho que sim, porque a União Africana nos últimos anos perdeu credibilidade. Repare o caso da Líbia, ele foi muito mal resolvido, e isso faz com que qualquer cidadão faça críticas fortes a União Africana. Esta organização está num nível muito baixo do ponto de vista de percepção dos países, e mesmo dos cidadãos. Eu penso que com a sua experiência e com o apoio que receberá, não só da SADC, acredito que ela fará algo para modar a imagem negativa da orgzanização.

NI: Falou agora da crise líbia, ela evidenciou a divisão no seio da União Africana, com a SADC a opôr-se uma intervenção estrangeira. Isso terá servido de incentivo para que a SADC se candidatasse a presidência da Comissão?

AG: As motivações para a candidatura da SADC são fundamentalmente tentar criar uma nova dinámica a organização, e também chegou a vez da SADC ocupar um lugar de destaque na UA. Também serviu para acabar com o mito de que os cinco grandes países em termos de cota para o funcionamento da organização não deveriam concorrer as eleiçõeS.

Leia mais e escute sobre o tema em:
http://www.dw.de/dw/article/0,,16168610,00.html

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O olhar de Mia Couto sobre Moçambique




Os livros do escritor moçambicano Mia Couto retratam a realidade moçambicana, embora de forma ficcionada. Mas quisemos ouvir do escritor a sua opinião sobre Moçambique nas diversas esferas, deixando de lado a ficcão.



Nádia Issufo: O que pensa da desigualdade em Moçambique e a forma como são tratados os megaprojetos no país?

Mia Couto (MC): Defendo que é preciso repensar a relação com os grandes projetos. É obvio que na altura em que o governo começou a atrair os grandes projetos tinha de criar condições muito especiais. Moçambique tinha acabado de sair da guerra e estava num contexto regional instável. Portanto, era importante que os investidores tivessem confiança. Mas alguns já estão cá há vários anos e da riqueza que exploram fica muito pouco para o país, e alguns desses recursos são findáveis.

Além de que é injusto que haja facilidades para estes, enquanto os pequenos e médios empresários não têm. Estes últimos têm de pagar taxas, enquanto os outros estão isentos. E economistas já nos mostraram que bastava que eles pagassem as contribuições fiscais para que Moçambique estivesse noutra situação.
Desigualdade é consequência do modelo que criamos, isso não é particular de Moçambique. Se formos aos países emergentes veremos que há profundas desigualdades. O mundo que visito, com a exceção de alguns países do norte da Europa, são realidades muito chocantes. O retrato que eles criaram de si próprios, como se todos vivessem como uma elite, não é verdade.


NI: As manifestações de setembro de 2010 foram as mais violentas desde a independência de Moçambique. Acha que este acontecimento provocou alguma mudança na relação entre o governo e a população?

MC: O susto devia ter sido mais forte. A elite moçambicana não reagiu da mesma maneira, houve uma parte dela que pensou. Eu vejo dirigentes a viajar em primeira classe, provocando gastos supérfluos e pedindo aos outros que façam sacrifícios quando eles não fazem nenhum.

E quando houve uma primeira reação a manifestação ela foi negativa, foi de recusa da realidade. E no segundo momento, em que o governo aceita, ele inclui algumas propostas que para mim foi um sinal de que houve uma revisão dessa atitude no que se refere aos gastos supérfluos da coisa pública.

Mas acho que isso foi sol de pouca dura, a tentação dos políticos é ver nos cargos que ocupam uma espécie de oportunidade de enriquecerem rápido. Era preciso uma pressão contínua dos partidos políticos, da sociedade civil, da opinião pública.

No fundo esta elite não é diferente das outras, elas em todo o mundo tem os mesmo tiques, defeitos e gostam dos mesmos luxos. Nos outros países existe provavelmente controle social, o peso da opinião pública, o peso da dinâmica política. Aqui isso ainda não é forte e por isso esta elite se sente a vontade para fazer o que quiser.



NI: A pressão dos doadores internacionais e da sociedade civil para maior transparência, boa governação e democracia aumenta. Já há efeitos dessa pressão em Moçambique?

MC: A pressão dos doadores é quase sempre ditada quase sempre por razões que são quase sempre de interesses próprios. Não estão a defender grandes valores morais. Pressionaram muito Angola e o país transformou-se numa nação poderosa com grandes capacidades de exportação de petróleo e os doadores já não pressiona muito.
A Guiné Equatorial era um exemplo típico de uma ditadura inaceitável. Os chamados doadores, eu não gosto desta expressão, porque ninguém dá nada a ninguém, mas chamemos assim, tinham uma campanha sistemática de pressionar para que a ditadura no país que fosse resolvida. Depois encontrou-se petróleo no país e ninguém mais incomoda o presidente.



NI: Falou da Guiné Equatorial, este país pretende entrar para a CPLP. Qual é a sua opinião sobre isso?

MC: Sou contra. Acho que a CPLP, Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa, podia ser a força que tinha, em termos de capacidade moral. Ela perde isso quando autoriza a si próprio a ter na família alguém que manche a sua idoneidade.

Porque hoje é assim, só se pode fazer política quando se tiver moral. Se a CPLP quer em nome de uma maior expressão numérica trocar isso por uma ausência de princípios morais, eu que não sou adepto de uma coisa que nem sei exatamente o que é, acabarei por me afastar cada vez mais.

DW África: Como moçambicano o que gostaria de ver mudado no seu país?

MC: Gostaria que a capacidade de crítica fosse mais visível, principalmente dos jovens urbanos, que eles fossem capazes de criar soluções de alternativas.
Acho que não sou ingênuo de pensar que a democracia é uma espécie de panaceia que resolve tudo, mas o jogo democrático, o confronto de idéias é uma coisa que falta muito em Moçambique.

Qualquer força política ou outra voz que surja com idéias novas que ponham em causa este status quo é fortemente atacada. E de repente já se estão a discutir pessoas e não idéias, portanto, há uma pobreza do ponto de vista das alternativas que estão a ser apresentadas.

E isso preocupa-me bastante porque há uma certa riqueza do ponto de vista da democracia, as pessoas podem falar, mas aceita-se que as pessoas digam coisas até realmente dizerem qualquer coisa. Quando se disser essa qualquer coisa, então ai há pouca tolerância e aceitação para perceber que ai é que está a nossa grande riqueza.

NI: O Mia já foi jornalista, qual é a sua opinião sobre a imprensa moçambicana?
MC: De uma maneira geral depois da morte de Carlos Cardoso o jornalismo de investigação quase sempre se confunde com o jornalismo que toca nos grandes escândalos, mas não é isso. Não vejo um jornalismo de pesquisa aqui.

O jornalismo de independência que se faz é de preguiça, que vive muito da opinião de fulano que acha que sabe, mas ninguém percebe porque ele tem de achar alguma coisa. Muitas vezes os artigos podiam ser feitos por leitores, por um tipo que por acaso trabalha num jornal. Também não há um ambiente que favoreça, não estou a pensar que os jornalistas são preguiçosos, não é isso.

NI: O Brasil é obviamente a potência da CPLP. Até que ponto há o risco de outros países obedecerem a batuta deste país?

MC: Estes países não podem arvorar-se apenas como vítimas. Nós não temos que chorar, mas sim ter a nossa agenda bem clara, a defesa dos interesses nacionais bem definida. E se assim for, não temo de ter uma posição muito ambígua.

Por exemplo, em relação à CPLP, a posição de Moçambique é muito ambígua. Em relação ao Acordo Ortográfico, achamos que tem a ver com os outros. Sobretudo quando se trata da língua portuguesa, nem damos importância. Por um lado somos de língua portuguesa, por outro lado, quando nos convém já não somos. Quando é para buscar dinheiro já somos da primeira linha. O facto de haver uma potência como o Brasil não pode ser vista a partida como algo negativo, pode ser positivo. Podemos até ter partido disso ao nível internacional.

NI: O Mia é também biólogo. Vamos também falar um pouco sobre o meio ambiente. O Homem tem sido responsabilizado pelas mudanças climáticas. Serão as mudanças apenas alvo de ações humanas, ou farão parte também de um processo normal? Por exemplo, o desaparecimento de espécies e o surgimento de outras...

MC: Acho que estamos num processo de fabricação do medo quando se fala no clima. É sempre por via da ameaça e isso impede que tenhamos uma visão serena e tranquila sobre o assunto.

A comunidade científica está profundamente dividida sobre o assunto e nós não estamos dispostos a ouvir outras opiniões. E o jornalismo também tem uma parcela de culpa nisso: simplifica os assuntos, só interessa o que vende.

Há um bombardeamento sistemático do que é negativo, que reduz a esperança. Somos uma espécie de soldados que não pensa, que aceita, que faz rentabilizar o medo porque o medo acaba por ser muito conveniente para manter o sistema.




terça-feira, 14 de agosto de 2012

A cor das ovelhas

"Ovelha negra". Usamos esta frase sem perceber a carga racista que tem. Não a rejeitamos, mesmo que não sejamos racistas, tal como o fiz no texto anterior... Só que foi nesse momento que percebi isso, e porque também não fazia muito sentido usa-la, afinal não conseguiria fazer a distinção que pretendia. A ovelha negra Malawi é negra como todos os outros países da SADC.
Tal como se coloca na "lista negra" os maus comportados, como as companhias aéreas africanas que não podem voar para a Europa, e em contrapartida as companhias europeias ganham licenças para voarem para África, é uma lista mesmo para negros... Dai algumas amigas usarem agora a expressão "lista branca" para dizer o mesmo que "lista negra". Pergunto-me se este tipo de frases exitem nas línguas africanas... E depois acham mau que se legitime o racismo defensivo...

Malawi, o menino mau da SADC

A intensa vasculha do hidrocarbonetos está a criar grandes tensões entre o Malawi e a Tanzânia. Esta sede pelos recursos naturais pode desencadear situações mais graves, mas não a guerra, considera Patricio José. Entrevistei o reitor do Instituto de Relações Exteriores de Moçambique para a Deutsche Welle, que entre outras coisas vê o Malawi como uma espécie de "ovelha negra" da SADC.

Nádia Issufo: A corrida pelos hidrocarbonetos pode desencadear alguma guerra entre vizinhos?
Patrício José: Eu pessoalmente não quero acreditar numa guerra, mas que vai criar instabilidade na relação entre os dois países isso é verdade. Ou então pode vir a reactivar problemas latentes que as diferentes conjunturas  pelas quais passamos ainda não tinham colocado os problemas a mesa. Naturalmente que quando começa a haver descoberta de recursos pode acordar problemas aparentemente resolvidos. Não haverá guerra porque isso não interessa a nenhuma das partes e a SADC não tem interesse em resolver mais um conflito

NI: A SADC conseguirá resolver esse problema, considerando que o posicionamento de Dar-es-salam é duro?
PJ: Acredito que sim, aliás estamos a investir muita energia nisso. E acredito que a cimeira de Maputo vai debater isso por forma a ultrapassar o assunto.

NI: Como ja referimos a Tanzania tem sido muito dura com o Malawi neste caso. O Malawi merece essa dureza?
PJ: Não sei se o Malawi merece ou se o país tem tido dificuldades em  manter uma política regional credível. Já há pouco tempo houve o problema com a navegabilidade do Chire, em vez de negociar com Moçambique colocou barcaças no rio sem autorização. Há o problema das fronteiras coloniais, mas o principio da União Africana foi bastante intangível, e agora o Malawi começa a pesquisar hidrocarbonetos sozinho. Eu acho que o Malawi tem de amadurecer politicamente para que possa conviver com os seus vizinhos porque isso também é do seu interesse.

NI: E até agora como se pode carecterizar a relação do Malawi com os seus vizinhos?
PJ: O país sempre teve dificuldades em lidar com os seus vizinhos, particularmnete com Moçambique. Acho que deve haver interesses que são estranhos até ao povo malawiano. Deve querer ter protagonismo por esta via, o que não acho correcto. Já nos tempos do presidente Banda houve dificuldades em lidar com os vizinhos nos processos de libertação, vieram os seus sucessores que também tiveram problemas em lidar com os vizinhos em matérias de integração regional. O Malawi tem de encontrar outra forma de estar primeiro para com o seu povo e depois para com os povos da região

NI: A nomeação da nova presidente do Malawi foi vista como uma porta nova para a melhoria das relações entre o Malawi e Moçambique. De facto houve uma viragem neste relacionamento?
PJ: Há uma melhoria significante. Pelo menos acredito que há uma plataforma de diálogo, se as duas partes apostarem nisso vamos ultrapassar muitos pendentes e criar um reatamento das relações entre os povos que sempre foi pacífica.

NI: Até que ponto esta busca sedenta de hidrocarbonetos pode criar tensão na SADC e em África no geral?
PJ: A descoberta dos recursos energéticos representa um desafio enorme para cada país em termos de política extena. Mas acho que a região tem de ver nisso um potencial para o desenvolvimento de cada país e da região. Não interessa a região ver algum membro pobre, porque isso acabará por criar instabilidade social nos vizinhos. Está ai o exemplo da África do Sul, há tanta emigração ilegal para lá porque o país tem um nível de desenvolvimento grande na região e por isso todos pensam que ir para lá é a solução, o que não é verdade. Parte da solução é alastrar o raio do desenvolvimento para todos os países da região. Com a potencialidade que cada um dos estados pode ter acredito que a complementaridade pode ser possível.

NI: O lago Niassa é partilhado entre o Malawi, Tanzania e Moçambique. Qual pode ser o papel de Moçambique neste conflito entre a Tanzania e o Malawi?
PJ: É de chamar a consciência para a necessidade do respeito pelos princípios adotados pela Unidade Africana (actualmente União Africana) porque os argumentos do Malawi não fazem sentido. Se não Moçambique também teria algo a dizer para rever os acordos, e isso não pacifica a região. Moçambique pode apelar as partes a negociarem.

Pode ler mais ou ouvir sobre o tema em: http://www.dw.de/dw/article/0,,16167385,00.html

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Já conhece os egícios?

Que injusto é este (des)acordo ortográfico! Sem acordo nenhum, pelo menos da minha parte, sou obrigada a escrever Egito, mas não sou obrigada a escrever egício. Onde está a lógica pá? Os gajos que nos impõem essas coisas não sabem que a língua é também uma coisa lógica??
Que ousadia mudar um nome! Afinal os nomes não escaparam a "internacionalização da língua portuguesa" a custa de uma uniformização forçada?

Zoo, uma contradição do Ocidente



O zoológico da cidade de Colónia na Alemanha é praticamente uma cópia da selva africana, tirando os ursos e mais alguns bichos. Como se adaptam eles ao clima gelado da Alemanha? Claro, que tão desenvolvido é este povo que deve ter criado algum sistema do tipo "estufa" para que eles "se sintam em casa..." Só não encontrou solução para o espaço de circulação dos animais habituados a terem a infinita selva para dar gosto ao pé. Eles estão quase enclausurados. Se existe psiquiatra para animais, então de certeza conlcuirão que todos já enlouqueceram...

Com isso conclui que o zoológico é contra os direitos dos animais (já que está na moda falar em direitos humanos...). Mas os europeus que muito lutam pela preservação da fauna e bravia e pela liberdade quase se esquecem deste caso. Devem estar a dar um desconto a esta velha mania europeia pelo "exótico" africano...

Acho que os europeus deveriam sim, continuar a pagar passagens de avião para visitar o Kruger Park, ou o Parque Nacional da Gorongoza se querem continuar a delirar com os exotismos da natureza africana. Ai sim, estariam a contribuir para o desenvolvimento do países africanos. E também para os seus, afinal algumas companhias africanas estão proibidas de voar para a Europa...



E isso me fez lembrar a conversa que tive com um austriaco, ele se revolta contra a morte dos animais em África. Isso porque nunca lhe faltou comida por causa de um elefante. Também porque nunca chegou a uma situação "ou eu ou tu". Quantos vezes em Moçambique a população tem de matar os animais para se defender ou proteger as suas machambas da gulosisse deles? É preciso separar o trigo do joio, há casos e há casos.

Esse mesmo austriaco é contra o ar-condicionado porque é mau para o ambiente, e tem razão. Mas ele que vá viver sob um calor de 40 graus que nem terá condições para pensar em questões ambientais de forma mais alargada, e pensará apenas no seu ambiente... Além de que ele não sobrevive sem aquecimento no inverno europeu, e isso não é menos nocivo para o ambiente do que o AC.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

União Africana: Os ventos da mudança vem do sul?

A SADC conseguiu,  Nkosazana Dlamini Zuma lidera a Comissão da União Africana (UA) depois de uma batalha campal contra o antecessor Jean Ping. Afinal a SADC não precisou de usar o "As" de ouro que tinha na manga... Será que esta organização conseguirá transmitir um pouco da credibilidade que a caracteriza a tão necessitada União Africana? A crise líbia foi o mais gritante exemplo da inoperância da UA, e também serviu para mostrar a desunião do grupo, com a SADC mais pró-Kadhafi, embora no último momento o presidente sul-africano tenha virado o jogo. Na última semana a primeira mulher a liderar a Comissão da União Africana, voltou a vincar que é contra a detenção do presidente sudanês, Omar al-Bashir. Aliás, um dos poucos temas em que a direção anterior e a actual não divergem...

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Onde anda a cara metade de Mandela?

Nelson Mandela faz hoje 94 anos. Apesar da saúde dele se fragilizar a cada dia que passa, e da media estar a espera ansiosa pela sua morte para conseguir audiência, o negro mais famoso do mundo não nos deixa. Mas claro que não se aplica aqui a frase "vaso ruim não quebra"... Neste dia importante para ele e bastante mediatizado, apercebi-me de uma coisa, que a sua esposa Graça Machel, ou Graça Mandela, não tem aparecido ao seu lado na imprensa neste momento dificil para Madiba. Claro, que o facto de não aparecer não significa que não esteja ao seu lado, mas é curioso. Os último artigos que li dão destaque aos seus filhos e netos. Falam dos dois primeiros casamentos dele, mas do terceiro nada mencionam. Quando esteve doente e hospitalizado, e os jornalistas se instalaram a porta da sua casa, a sua esposa esteve invisivel. O que se passará?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Guebuza: política de prevenção e massageamento?



O presidente de Moçambique numa visita a província de Cabo Delgado, em mais umas das suas visitas abertas, apelou a população a vigiar a prospecção de hidrocarbonetos, segundo o jornal "O País". Ler mais em:  http://www.opais.co.mz/index.php/politica/63-politica/20930-guebuza-pede-populacao-para-vigiar-hidrocarbonetos.html

Ao querer "amaciar" a população, para garantir uma gestão governativa saudável, Guebuza coloca-a numa situação ridicula, e parece-me que assim goza com ela. Que condições tem a população para responder a este tipo de pedido? O presidente moçambicano é bastante inteligente, e me parece que com este pedido quer fazer sentir a população que ela também é parte do processo, o que não é bem verdade.

Vale mais previnir do que remediar
Ainda nesta província, onde estão os mais importantes projectos de gás, apelou a união, citando exemplos de países africanos que vivem em conflitos por causa das riquezas naturais. Armando Guebuza também não se esqueceu de falar da ganância: "...há uma ambição desmedida de algumas pessoas que querem enriquecer tomando tudo. Não podemos olhar para o gás como motivo de conflitos e divisao, mas sim como um factor impulsionador da uniao”, ler mais em:  http://www.jornalnoticias.co.mz/pls/notimz2/getxml/pt/contentx/1469551

O terreno está a ser preparado pelo presidente, ele está em ações "educativas" para evitar desastres maiores para o país, e para ele, claro. E a quem une as riquezas do país? A cada dia que passa o continuum entre ricos e pobres se alarga. O seu pedido constitutui um paradoxo, na medida em que as suas teorias chocam com as práticas do seu governo. Os poucos ricos se unem entre eles e aos investidores estrangeiros, e os muito pobres nem tem condições para se unirem entre eles. O presidente falou em ambição desmedida? "rio, rio, rio para não chorar". Algumas ONGs, como o CIP por exemplo, estão sempre a denunciar a participação de gente ligada ao poder político no mundo dos negócios. Até entre eles se instalou a guerra. Segundo a ONG está haver uma migração desta classe dos pequenos e médios negócios para o grandes.

O presidente não deveria deixar que a media publicasse esses discursos, ele não pode confundir a todos com a população a quem ele tenta cultivar uma política ideal, que não é praticada pelo seu governo na integra.





segunda-feira, 2 de julho de 2012

Alemanha fora do Euro? Quem diria...

A Itália mandou a confiante Alemanha para casa na recta final do Europeu de futebol. Teria achado hilariante e irónico se tivesse sido a Grécia a vencer, pelo menos nalgum momento do "Euro" haveria uma inversão dos papeis... E de certa maneira houve, a Espanha, que se recusa a aceitar que está em crise, levou o trofeu para casa.

Depois da derrota os alemães ficaram mudos, nem um piu. Engraçado este comportamento geral deste povo. Mas antes disso, os alemães festejaram as vitórias como se de uma final se tratasse. Devo dizer que exagera(ra)m. É oito ou oitenta, conforme a dor ou felicidade. E muitos sofrem de sindroma de patriotismo agudo. Provavelmente as competições sejam uma oportunidade para manifestar esse amor quase doentio por eles próprios. Tal como tem uma fixação com reis, rainhas, princesas nas suas celebrações...

Parece-me que a Alemanha estava certa que conquistaria o Euro, esquecendo-se que a bola é redonda.  A reação da Mannschaft no dia da sua eliminação é bastante reveladora. Os jogadores estavam incrédulos com o resultado. No silêncio. Outros fizeram questão de esconder as lágrimas. Quem mais reagiu dessa maneira nesta competição? Acho que este comportamento merece uma análise...

Avós dos seus filhos

No fim de semana, na Alemanha, fui a uma festa de crianças com idades que variam dos três aos seis anos de idade, e reparei que aproximadamente 90% dos pais pareciam mais velhos que a minha mãe que ainda não tem secenta anos. A primeira vez que reparei nisso foi há dois meses quando comecei a frequentar mais um parque infantil. As mães com algumas rugas na cara, cabelo meio grisalho. Resumindo: gente bem madura. Isto é apenas a minha observação e não uma crítica.

Sendo eu africana, esta realidade causa-me espanto, mas ao mesmo tempo admiração. Do lugar onde venho as pessoas começam a procriar mais cedo, embora em grandes cidades isso começe a acontecer cada vez mais tarde. Percebi com isso que o ser humano, e principalmente os ocidentais, procura dar voz ao seu EU e depois constitui família, ou tem filhos. A realização profissional, académica, a obdeiência a mobilidade que hoje se impõe faz com que gente grisalha possa ser avó dos seus filhos.

Uma mais velha que muito merece o meu respeito disse-me uma vez: "Vocês fazem filhos aos 30 e depois não tem paciência para eles." Acho que essa teoria se evergonharia um pouco ao ver o quão paciente esses grisalhos são com os seus filhos. Essa mais velha também defende que é bom termos filhos cedo para que os vejamos crescer e realizarem-se. Convenhamos que esse é um bom argumento, ainda mais em África onde a esperança de vida é baixa. Mas como a esperança de vida na Europa é alta, talvez por isso as pessoas esperam que apareçam os cabelos brancos para mudar fraldas...

Por outro lado me pergunto até que ponto a liberdade quase infinita que temos actualmente nos torna pessoas egoistas. Descobrimos que temos muitos EUs dentro de nós que pedem para serem soltos, e o resto das coisas importantes da vida vão ficando pelo caminho. E como o ponteiro do relógio não pára...
Já ouvi histórias surpreendentes aqui: "não podemos namorar porque no momento estou muito concentrado na faculdade.", "tou a fazer uma cadeira díficil, tenho de me dedicar a ela.", etc. Parece que hoje não se consegue diferenciar os "departamentos", é como se as pessoas tivessem instituido a teoria dos vasos comunicantes nas suas vidas... Ou será que as pessoas de hoje são tão frageis que não tem capacidade para gerir em simultâneo os diversos "departamentos" da vida? Enfim, poderia continuar a levantar milhares de questões se não tivesse mais que fazer...

terça-feira, 26 de junho de 2012

ONG Justiça Ambiental impedida de entrar no Brasil

Há cerca de duas semanas as autoridades brasileiras impediram a entrada do activista moçambicano Jeremias Vunhenje no país. As justificações para tal procedimento são descabidas, de acordo com o activista, e uma delas é a acusação de tráfico de drogas. O activista da ONG Justiça Ambiental ia participar nas Cimeiras dos Povos e Rio+20. Vunhenje, entretanto, chega na segunda-feira (18.06.12)ao Brasil depois de ter conseguido um novo visto. Mas a ONG moçambicana exige das autoridades brasileiras um pedido de desculpas e já garantiu que vai investigar o caso. A JA tem algumas suspeitas, mas Jeremias Vunhenje conta primeiro como tudo aconteceu:


Jeremeias Vunhenje: Embarquei no dia 12 para o Brasil, e nos serviços de migração do país a agente, sem falar comigo, gritou para o colega "impedido". Ela foi falar com o colega e mandaram-se aguardar. Passados cerca de 30 minutos o polícia disse-me que seria recambiado. Eles não me explicaram as razões, apenas disse que a polícia federal tinha competências para fazer o seu trabalho. Insiste, apresentei a minha carta convite, a reserva de hotel, mas eles não quiseram saber. Eles escoltaram-se até a sala de embarque, e insite mais uma vez, mas um dele disse-me: "O senhor vem cá faz confusões, esteve cá em maio e estás a ser procurado porque está envolvido no tráfico de drogas."

NI: A JA tem alguma suspeita para esta atitude?
JV: Temos sim, mas acima de tudo estamos indignados e perplexos com a decisão das autoridades brasileiras. Não nos foi dada uma explicação plausível para a proibição da entrada de um membro da sociedade civil num encontro das Nações Unidas.

NI:  E que nos falar das suspeitas da JA?
JV: Achamos que não é uma decisão tomada ao acaso, agora quem eventualmente está por trás disso nós não sabemos e não temos provas. Sabemos sim, que a JA está envolvida em campanhas de denúncias e de defesa dos interesses das comunidades e que isso muitas vezes, até dentro de Moçambique, tem sido alvo de críticas e até de ameaças. Percebemos que é mais um desses sinais de tentativa de nos calar.

NI: Associa isso a empresa Vale? Porque sabemos que a JA tem estado a trabalhar muito com o caso da Vale em Tete...
JV: A JA e eu próprio não associamos isso a alguma empresa, e muito menos a Vale. Agora é uma verdade que nos últimos seis meses nos batemos por todas as vias pelos interesses das famílias reassentadas pela Vale. Denunciamos por todos meios e com toda a contundência as péssimas condições que as famílas reassentadas enfrentam. Eu já fui levado para a esquadra em Cateme, onde sofremos intimidações. E é verdade que uma das actividades principais da JA no Rio de Janeiro era de fazer uma apresentação e expôr o caso da Vale, denunciando os maus procedimentos da empresa em Moçambique. E naturalmente a própria Vale, que por sinal financia a Rio+20, e o governo de Moçambique sabem que iamos expor o caso da Vale, todos estes estão interessados na forma como o projecto está a ser gerido, estão a acompanhar o nosso trabalho. Não temos provas disso, mas é uma hipótese eventualmente a admitir.

NI: O que a JA pretende fazer agora?
JV: No dia 14 tivemos um audiência com o Consul do Brasil em Maputo, e apresentamos as nossas exigências e uma delas é que o representante da JA voltasse o mais urgente para a conferência, e isso já foi possível. Deram-me um novo visto. A segunda exigência é a retirada do meu nome da lista do sistema nacional de procurados e impedidos do Brasil . A terceira é que façam um pedido de desculpas público e que assumam as consequências quer financeiras, quer morais da acusação contra mim,  puseram em causa a minha imagem e integridade.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Jimmy, o explorador





 Foto: Sérgio Mandlate

Quando ele sobe aos palcos suga tudo o que se pode imaginar da memória emocional colectiva dos moçambicanos. Não há reclamações, o público dá e pede para ser explorado. A sua viola invade períodos empoeirados dos público, tocando "amatuwe twe, twe" ou "gogo ni langi wene" e se arrasta até para espaços físicos dos genes do público. Esses são com certeza cobertos por tetos de zinco e envoltos em caniço: "Os do Chamanculo para o palco e mostrem que sabem dançar", e língua de comunicação é principalmente o Rhonga. Pelo menos a pessoas do sul de Moçambique e Jimmy Dludlu quase se confundem no momento do show.

Supostamente a maior parte das músicas que deveriam ser tocadas no espetáculo de Maio são do seu último album, mas tal não aconteceu. O músico soube prender o público com as músicas de albuns anteriores. Afinal Músicas e cheiros nos fazem viajar no tempo, não? Um público que na sua maioria tem mais de 30 anos aproveitou para se recordar dos anos oitenta.

Jimmy Dludlu é uma figura que preenche o palco. Vive plenamente o que faz, talvez por isso a sua música seja boa. A sua banda é fantástica, e nalguns momentos percebe-se que andam mesmo a mercê do músico e do seu feeling. Desconfiei até que já estava na hora de terminar o espetáculo, mas Dludlu não abandonava o palco. Ele tem  muito brilho, ofusca as coisas boas a sua volta, no bom sentido. Para as pessoas que não acreditam em Deus, aconselho-as as ouvirem e verem este homem. Ai perceberão que o dom que tem só pode ser algo divino. Amén.




segunda-feira, 23 de abril de 2012

Uma assinatura para o Bahrein

Uma assinatura para ajudar o povo do Bahrein. Este é o pedido da Amnistia Internacional numa esquina de Oslo. Comovente. O argumento para conseguir o "Nádia Issufo" na lista era que o país é uma monarquia, cujo povo luta por mais democracia e liberdade. Quase cai, peguei na lista e na esferográfica e o sorriso da mulher da AI se abriu mais, mas recuei e contra-argumentei: estavamos numa monarquia também (apesar de ter um governo democrático e haver respeito pela liberdade, factos conquistados as suas custas) e desejo verdadeiramente o bem estar do povo do Bahrein, mas acredito que essas conquistas tem de ser alcançadas internamente. E isso está a acontecer, não foi nenhum estrangeiro que enfretou a polícia, queimando pneus e bloqueando estradas neste fim de semana. Nem no ano passado quando dezenas de pessoas morreram em manifestações. Não escondo, a ajuda externa é um termo cujo enquadramento no meu catálogo é problemático. Devolvi a esferográfica e o papel, e o sorriso da mulher se manteve inalterável. Desejou-me uma boa estadia na cidade e aconselhou-me a visitar o Parlamento, que por sinal o Bahrein também possui e não foi com a ajuda externa.

No geral as revoluções no mundo árabe foram de natureza endogena, e hoje esses países continuam a traçar o seu percurso consoante a sua vivência, facto que de certo modo despontou a comunidade internacional, principalmente no que diz respeito a laicidade dos Estados. A islamização na política ganhou mais expressão, abrindo mais espaço para os radicais, que por sinal não tem poucos apoiantes, tal como os partidos europeus de extrema-direita tem cada vez mais apoiantes. Cada povo tem a sua história, seu rumo e seu estágio de desenvolvimento. Ajuda é bem vinda, ninguém faz conquistas sozinho, mas como dosea-la para não se transformar em intromissão, prepotência, e em atitude de "ohh, coitadinhos"?


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Resquícios de um racismo paternalista no Brasil?

Tenho viajado todas as noites para o fantasiado e colorido sítio do pica pau amarelo do livro "Reinações de Narizinho" do brasileiro Monteiro Lobato. Confesso, tenho me divertido horrores com as suas pequenas histórias, tal como me tenho decepcionado horrores com as suas demonstrações "paternalistas" de racismo. A empregada da história é preta, o que não constitui novidade nas representações brasileiras e não só. Sendo isso um facto real, justo é que seja representado.
Agora ler frases como "a negra boa..." ou a "negra beiçuda..." "aquela diaba feia..."(em referência a emprega) é algo anormal, não? Em nenhum momento se diz no livro: "a branca dona Benta", ou seja, posso presumir que se ser branco é o "normal". E no país mais miscigenado do mundo, com forte base socio-cultural negra, chega a ser vergonhoso.
Preto é preto, branco é branco e rosa é rosa! Não me incomodo que as coisas sejam chamadas pelos nomes. Mas as pessoas não devem ser carecterizadas pelas construções sociais que de uma maneira geral só discriminam, e sim apresentadas pelo que são em determinado contexto.
Absurdo maior é que este livro, editado pela primeira vez em 1964, continue de forma intransigente a perpetuar o racismo. A edição mais recente, a que tenho em mãos, é de 2007. Sendo este um livro para crianças, que tipo de valores estarão a ser passados para os brasileiros de amanhã? Sim, porque quanto aos de hoje, nao sei o que dizer.
Entretanto, na versão televisiva desta história essas "negra" e "preta" foram "limpas" das bocas dos personagens. Isso demonstra que ainda existem pessoas sensatas.
Isso me faz lembrar relatos de um colega português, ele diz que em Portugal  "os pretinhos" era a expressão racista paternalista da moda nos anos setenta e oitenta. Na sua infeliz ignorância alguns achavam que estavam a ser carinhosos com os "coitados" dos pretos, coitados...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Encontro casual com o saber


Numa caminhada ao longo de um parque verde de Bona, uma estante de livros se põe a frente de mim. Sim, porque não estou a espera dela, tal como a maioria dos mortais não está a espera desta irreverente inovação. E mais alguns encontros destes acontecem um pouco pela cidade, gracas a um cupido chamado municipio-municípe. Sou informada que as estantes são alimentadas por generosos anónimos, dispostos a partilhar o que tem, desprovidos de egoismo e a estante, claro, disponibilizada pelo município. Qualquer pessoa pode levar um livro sem ter de passar pelo bibliotecário, e melhor, sem passar por burocracias. Mas tem de o devolver a estante, "afinal o saber nao pode ficar refem de ninguém", disse isso um colega meu numa reunião em 2004, referindo-se a colegas que dominavam determinadas técnicas de trabalho, mas que se recusavam a passar aos outros. Se a maioria fosse "grande", o mundo seria menos pobre em todos os sentidos.

Entretanto, nem todos os que dão os livros é porque estão preocupados em alimentar mentes alheias. Uns o fazem porque se querem livrar dos excessos que tem em casa, e aliviam-se na bibliotecas livres. E também porque a mobilidade domina o estilo de vida de hoje, os livros tornam-se um peso na hora de correr a mala para outro pouso temporário. Na verdade não interessa o que originou a doação dos livros, o que interessa é que eles estão lá e circulam. São exemplos desses que gostaria de levar para o meu país, com a boa vontade e a generosidade de quem tem pouco, mas que quer ver as coisas andarem. Até me lembro da frase "onde come um come dois, onde come dois come três...", que no meio onde vivo é percebido mesmo ao pé da letra. No caso do saber vale lembrar no sentido figurado mesmo que "onde lê um, podem lêr um milhão..."

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Guiné-Bissau não contraria expectativas, e vive mais um golpe

Mais um golpe de Estado teve lugar na última noite na Guiné-Bissau. Era previsivel, e os factos comprovam isso: o descontentamento dos militares, e possivelmente outras forças políticas do país, face a presença da Missang, a missão militar angola de apoio a reforma do sector de defesa no país, e em resultado disso a manifestação clara desse desagrado por parte de António Indjai, chefe das forças armadas nos últimos dias. E ainda nesta cadeia, o anúncio da retirada da Missang esta semana. Qualquer um que acompanhe as notícias esperava por isso, e os guineenses mais ainda, tanto é que se manifestaram solicitando a permanência da "Semsangue" em seu território.

Cadogo, não se joga dos dois lados
Como se diz, Cadogo tem o rabo preso com os militares. Até porque não se explica como depois deste ter sido preso por António Indjai em 2010, e ter expulso o ex-chefe das forças armadas Zamora Induta, Indjai, para a surpresa geral, ter sido nomeado para liderar o exército. Lembrem-se, isto custou a Guiné-Bissau fortes repressões e quase "sanções" internacionais.
Por outro lado esse homem com rabo preso mostra que quer "limpar" a casa, e talvez aproveitando a boa imagem do falecido presidente Malam Bacai Sanhá quase conseguiu, pelo menos aos olhos de quem não o conhece... Carlos Gomes Júnior jogou a sua grande cartada quando conseguiu o apoio de Angola. Ele tinha  de jogar o jogo de Luanda, ou seja ficar com rabo preso tambem. Também um golpe militar falhou graças a intervenção da "Semsangue", Carlos Gomes Júnior não se transformou num cuador de sangue dessa vez por causa de Luanda. Pode um único rabo estar em duas mãos?

Os louros de Angola no meio da confusão
A comunidade internacional, em particular a ONU, nunca colocou ordem na Guiné-Bissau, embora constantes arbitraridedades tenham lugar naquele país. Angola aparece como o salvador da pátria com a sua "Semsangue", embora talvez movido por interesses "maiores", tais como um domínio no continente africano em termos diplomáticos e claro, interesses económicos. Esquecendo as ambições "expansionistas" de Luanda, deve-se reconhecer que enquanto a sua missão esteve em Bissau pelo menos a população, uma vez em muitos anos, se sentiu segura. Mas que mensagem quiz passar o governo angolano com a retirada dos seus homens? Não acredito que tenha sido só o descontentamento dos militares que ditou a sua retirada. Mas seja qual for o motivo, Luanda mostrou que é possível manter minimamente bem a Guiné-Bissau dentro dos carris.


Acabar com o pão dos militares?
Se por um lado algumas correntes preferem apontar o sentimento de inferioridade por parte dos militares guineenses como principal motivo para querer a "Semsangue" fora do país, eu quero acreditar que os militares "graudos" não querem que acabem com o seu pão. Quem compactua e ganha com o narcotráfico na Guiné? Todos sabem que são principalmente os militares que não estão na mão do governo. Alguns políticos no governo já tem o seu nome associado a esse negócio também. A Guiné-Bissau é dominada por uma máfia. Tentar entender os meandros do crime em que se assenta esse país é uma ginástica escabrosa. Mas de uma coisa estou certa: esses militares não tem amor a sua vida, e portanto a vida da população não lhes diz nada.


Kumba Ialá pega em armas?
Notei uma clara tendência de alguns jornais associarem implicitamente o golpe militar com a figura de Kumba Ialá, um dos prováveis vencedores das presidenciais. A ser verdade esta suposição, pode-se perpetuar a sujidade nesse quintal do narcotráfico, com alianças questionáveis. A história da Guiné-Bissau mostra que não se pode subestimar este candidato, visto por muitos como louco. Já foi presidente graças também ao voto étnico que tem peso no país. Portanto, só esses dois factores já lhe podem garantir o lugar nos comandos do país. E depois fala-se em democracia, quando o que dita a vitória são outras coisas...

terça-feira, 3 de abril de 2012

FMI conclui financiamento a Angola em meio de polémica

O Fundo Monetário Internacional (FMI) desembolsou, na última quarta-feira (28.03), a tranche final do empréstimo solicitado por Angola, em 2009, apesar dos apelos contrários feitos pelas ONGs de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) e Revenue Watch Institute.Para estas organizações, o congelamento do empréstimo seria uma forma de pressionar Luanda a justificar, de forma satisfatória, o desaparecimento de somas avultadas dos cofres do Estado e a implementar mais medidas para o fim da corrupção e o aumento da transparência. Em entrevista à DW África,conduzida por mim, Jean-Marie Fardeau, da HRW, explica melhor o que os moveu nesta iniciativa gorada.

Jean-Marie Fardeau: A Human Rights Watch e a Revenue Watch são as duas organizações que decidiram solicitar ao FMI que não desbloqueie os 130 milhões de dólares para Angola, por causa de uma questão que temos há vários meses sobre a utilização, pelo governo angolano, de 32 mil milhões de dólares que estão em falta na contabilidade nacional do país. Para nós, as respostas de Angola, depois dessa descoberta, não são suficientes e não correspondem à esperança que temos de ter certeza de que este dinheiro foi usado no interesse do povo angolano.

Nádia Issufo: Mas, ao impedir a libertação da última tranche também os projetos de desenvolvimento de Angola podem ficar comprometidos...


JMF: Para nós, a questão da má gestão e da corrupção são coisas muito importantes, que prejudicam ainda mais o desenvolvimento de um país que o facto de receber, agora ou daqui há um mês, um empréstimo de 130 milhões de dólares. Sabemos que Angola fez esforços para melhorar a transparência da contabilidade ligada à exploração petrolífera do país. Mas esse problema dos 32 mil milhões de dólares, o facto de que a comissão de investigação que foi nomeada pelo governo não ter dado ainda os resultados completos, cria uma situação que para nós não justifica a disponibilização de 130 milhões de dólares. Este dinheiro é só uma parte de um empréstimo de mais de mil milhões de dólares, cuja maior parte já foi dada a Angola.

NI: Apesar do não esclarecimento do desaparecimento desses 32 mil milhões de dólares dos cofres do Estado angolano, o país recebeu elogios do FMI pelo bom desempenho económico. Isso não constitui um paradoxo?

JMF: Sim, é um paradoxo ver o FMI felicitar Angola pelo desempenho económico, apesar de continuarem em Angola os problemas de má gestão e de falta de transparência sobre o uso do dinheiro público. Também é importante lembrar que Angola continua numa posição muito afastada em relação ao nível de desenvolvimento económico e de desenvolvimento humano. Ocupa a posição de número 148 entre os países do mundo em relação ao desenvolvimento humano - da educação das crianças e da saúde - apesar dos recursos enormes do país. Então, essa diferença entre o desenvolvimento económico e o desenvolvimento humano é obviamente um problema para nós.

NI: A HRW vê algum tipo de melhoria em Angola no que diz respeito à transparência e à corrupção?


JMF: A HRW e o RWI consideram que o governo de Angola adoptou algumas medidas para melhorar a transparência e a gestão do setor petrolífero. Mas, para nós, isso ainda não é suficiente. Faltou ao FMI a oportunidade de pedir a Angola que melhore ainda mais a gestão dos recursos naturais e financeiros do país, que já permitiram a Angola limitar e reduzir a dívida externa, mas continuam os problemas de uso do dinheiro em benefício do povo e das necessidades sociais do país. Esse problema do uso do dinheiro público é uma questão que, para nós, ainda não está resolvida em Angola.

Para ouvir esta entrevista consulte: http://www.dw.de/dw/article/0,,15848969,00.html
Selecione a emissao da manha do dia 30 de Marco